sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Um lugarzinho mágico

"Acho que na entrada dessa chácara existe um portal mágico, que quando as pessoas passam por ele, ficam completamente insanas". Tal teoria foi levantada pelo próprio dono da propriedade, localizada nas proximidades de São Gabriel (GO) - distante uns 70 km de Brasília. A bem da verdade, todas as vezes que Muricy teve a coragem de convidar seus camaradas para acampar em sua chácara, com carne rodando no espeto, mesa de sinuca profissional para distrair e cerveja gelando no freezer e/ou isopor, voltou de lá com algumas reclamações e histórias no bolso.

Os bêbados insanos já chegaram ao absurdo de inventar uma nova modalidade esportiva: o "cervejobol". Consiste em atirar contra o outro bêbado latas de cerveja (quente, claro) meio cheias. Acertar na cabeça vale mais pontos. Altamente saudável e recomendável para ser praticado em família, com as crianças. Outra invenção genial: libertar o Rex, um "amigável" cão da raça Fila Brasileiro, de humildes 90 quilos, e depois sair correndo. Pra quê? Só para sentir a adrenalina... "Mas porra! O bicho vai pegar a gente! E aí fodeu!", tentou argumentar um dos quatro bebuns, segundos antes de executarem a tarefa. "Mas isso é óbvio. Só que nós somos quatro. Ele só vai correr atrás de um. Vai cada um para um lado e alguém vai se foder...". Felizmente, para o alívio das mães desses quatro infelizes, ninguém conseguiu abrir o cadeado do canil, tamanho o estado de embriaguez. Telefonar insistentemente para os celulares de quem já está dormindo, bater na janela dos quartos e sair correndo, fazer montinho em quem não resistiu e foi dormir ou gritar palavras de ordem como "cervejaaaaaaa" ou "macooonhaaaaaa" são outros fatos recorrentes até o amanhecer.

FAIXA DE GAZA NO CERRADO
Mas nada se compara com a última estadia dos convivas de Muricy naquela propriedade. O braço armado do Hezbollah no Planalto Central, disfarçado de jogadores de sinuca e bebedores de cerveja, agiu durante toda a noite naquela região. A desgraça começou a se desenhar já na chegada ao latifúndio, quando Bharrygah, um dos terroristas, revela a Zekah - um grande entusiasta da arruaça. "Cara, eu trouxe fogos", soltou com a mesma naturalidade de quem diz "cara, eu trouxe carne para o churrasco". Zekah, meio cabreiro com a informação, foi conferir. No porta-malas do carro de Bharrygah, um arsenal de encher os olhos. O revéillon nas areias de Copacabana perderia fácil para aquilo.

Evidentemente, isso só poderia dar merda. A primeira explosão saiu por volta das 17h. A última, dizem, só as 6h13 da manhã. Entre a primeira e a última explosão, muita coisa aconteceu. A farra começou com nove convidados - incluindo dois comportados casais de namorados. Terminou com Zekah, Friederich e Khozumell, três fundamentalistas que infernizaram a vida de quem tentou dormir. Os morteiros explodiam com intervalos não superiores a 10 minutos. "Gente! Pelo amor de Deus! A gente está tentando dormir! E tem uma criança de três meses na casa do caseiro!". Terrorista não tem alma. Tampouco coração. Quase alheios às súplicas da primeira dama do ambiente, os três últimos fanáticos, depois de 89 latas de Skol (devidamente contabilizadas, segundo os presentes) tiveram uma brilhante idéia. "Galera, vamos mais para o meio do mato, para não fazer barulho". Esqueceram que estavam em uma área aberta e que independente da distância, as explosões ecoariam a quilômetros dali.

"Esse lugar é mágico", era um dos mantras repetido o tempo inteiro por Friederich. O outro era: "Acho que o Muricy vai ficar puto...". E ficou mesmo. No meio dos exercícios de guerra, o jovem confiscou o som, desligou o freezer, apagou as luzes e deixou os três terroristas acuados no meio da floresta. Só eles, o breu, uma machadinha (usada para abrir as cervejas) e alguns foguetes nas mãos. Já era dia quando os incendiários deixaram a floresta e tentaram se socializar novamente. Isso porque ouviram alguns palavrões vindos da residência oficial. Foi só aí que a ficha da inconveniência começou a cair. Tentaram até argumentar, mas Muricy, no limite extremo da impaciência, estava coberto de razão. Não dava para argumentar. Os "bandidos" tiveram que deixar o local com o rabinho entre as pernas - sem, no entanto, deixar de soltar alguns impropérios contra a falta de esportiva da rapaziada.

No caminho para o carro, ainda passaram por um dos filhos do caseiro. Tentaram estabelecer algum tipo de comunicação, mas o garoto só olhava para os três sem dizer uma única palavra. "Tudo bem, eles estão putos mesmo. Acho que realmente havia um bebê. Eles devem estar nos odiando", concluiu Khozumell. Mais uma tentativa de comunicação e mais uma ignorada. Definitivamente, o trio estava sendo odiado. Para a surpresa de todos, inclusive de Muricy, dias depois descobriu-se que o garoto "mal humorado" era surdo e mudo... Após esse fatídico episódio, os três terroristas nunca mais voltaram ao lugar mágico. Sofreram represálias de seus convivas e foram acidamente criticados e classificados como "personas non gratas". Dizem que foi pouco para quem tomou toda a cerveja do grupo, infernizou a vida de uma família trabalhadora e dos amigos e descarregou 30 quilos de fogos madrugada adentro. Empurrado para o ostracismo, o trio chegou a uma visão diferente. A culpa de toda a desgraça alheia é pura e unicamente de Barrygah, o fornecedor das armas...

Sem mais para o momento

P.S.:
O Taverneiro ficou temporariamente largado por motivos de férias. E férias é tempo de beber cerveja por 12 horas seguidas e dormir por outras 12 horas. Até as próximas férias, esse espaço continuará sendo atualizado frequentemente (sem trema).