terça-feira, 31 de março de 2009

Mestres dos esquemas furados - Parte FINAL

"FO - DEU". Walisson e Wilson - que de drogas só usam nicotina, álcool e barangas gordas - se entreolham e concluem: hora de sair pela direita, como diria o Leão da Montanha. "Ahn... não, não, a gente está tranquilo. Vamos ficar só na cerva mesmo. Vai lá. A gente espera", respondeu Wilson. Luana Piovani e Helen deixam o apê e partem para a boca, buscar algo que as deixassem ainda mais pilhadas. Minutos depois, Soraia capota e dorme no chão da sala, sem cerimônias. Walisson até cogitou bulinar a gordinha, mas pensou melhor e preferiu dar uma cagadinha no banheiro todo arrumadinho, decorado, com cores creme e marrom, perfumadíssimo. Dez minutos de "obra" depois, o gordinho hipertenso sai do trono, com um cigarrinho na boca e sorrindo. "O banheiro é ótimo. Tem até chuveirinho pra lavar o furico". Wilson se animou e já entrou no banheiro abaixando as calças. Ficou lá outros dez minutos e deixou uma "criança" amarronzada boiando. "Descarga pra quê? Tive que deixar uma marca para as gatas nunca mais esquecerem a gente", explicou Wilson, com a honestidade de uma criança. Em seguida, cada um pegou duas latas de Skol na geladeira e se mandaram, deixando Soraia roncando no meio da sala.

Dali, nossos heróis tinham como destino a casa de Walisson, onde Wilson havia deixado sua Belina ano 79, cor azul geladeira. O problema é que eles estavam sem carro, sem dinheiro, fedidos, de ressaca e já se passavam das 10h da manhã. Pior: a casa do sujeito ficava distante uns 5 quilômetros dali e o calor chegava aos 32º. "Vamos andando. A gente já está todo fodido mesmo. O que é um peido pra quem já está cagado?". De fato, haviam cagado, mas, creio, se limparam com o chuveirinho. "A gente vai pelo Parque da Cidade. Uma hora a gente chega", calculou Wilson. Durante o longo e tortuoso percurso, a mãe de Wilson, dona Valquíria, preocupada com o desaparecimento do filho, liga para seu celular. Wilson conta toda a história, desde a ida ao show até o roubo do carro, passando pela delegacia e "café da manhã" na casa de umas "amigas". Dona Valquíria é amiga de dona América, mãe de Walisson. Não pensou duas vezes e ligou para dona América e contou o que estava acontecendo.

Durante longos 15 minutos, o celular de Walisson tocou 367 vezes. "Mãe chamando", piscava no visor de seu Nokia. "Wilson, não vou atender essa merda. Tô puto. Se quiser, tu atende...". Na 400ª vez que o celular tocou, Wilson tomou o celular da mão do amigo, atendeu e tentou apaziguar a situação. "Calma tia América, nós estamos bem. Ninguém tocou na gente. Já estamos a caminho, passando pelo Parque. Pode ficar tranquila". Ao ouvir aquilo, dona América entra no carro com sua outra filha, a Paty, e sai em busca dos dois irresponsáveis. Não demorou cinco minutos e eles foram encontrados cambaleando no meio da rua, quase com uma ensolação. "Walisson!!! Seu bêbado do caralho! Entra já nesse carro e vamos para casa!". Walisson ignorou os chamados de dona América por cinco minutos, até que Paty se emputeceu e mandou a mãe largar de mão os dois bêbados.

Os heróis continuaram sua Via Crucis. Depois que atravessaram o Parque da Cidade, chegaram a uma das principais avenidas dessa Brasíla-véa-sem-lei, a W3 Sul. Por trás dela, na W2, existem vários "estabelecimentos chinelos": oficinas de quinta categoria, mercearias, brechós e, claro, muitos bares sujos. "Bicho... estou com as pernas 'sangrando'. Vamos dar uma descansadinha nesse restaurante aqui", sugeriu Walisson, o hipertenso. Na verdade, era um botecão, dos mais sujos e mal frequentados das redondezas. No balcão, eram servidas coxas de frango morto na última guerra do Golfo e kibes fritos na época do Império."Big Bar" era o nome da peça. Sentaram-se à mesa e pediram mais uma Skol. "Tá quente ainda!", gritou o barman. "Tem problema não. Traz essa merda assim mesmo", insistiu Wilson. O meio-dia já se aproximava quando entra no Big Bar duas coroas serelepes, Claudete e Rosemary. A primeira pesava 300 quilos e tinha 58 anos. Já Rosemary era mais novinha, acabara de completar 53, mas só tinha cinco dentes (podres). "Uau... olha só aqueles dois garotões ali dando sopa. Vamos atacar!", disse Rose, como passou a ser chamada. Wilson e Walisson percebem a aproximação das veteranas e, antes mesmo que elas pudessem falar alguma coisa, ambos se levantam e puxam duas cadeiras para as "gatas". "Nossa! Gostei! Vai ser melhor do que eu pensava", agradeceu Claudete.

Pouco mais de 15 minutos bastaram para as velhas estarem sentadas no colo da dupla, morrendo de rir, contando histórias, bebendo, fumando, bulinando e etc. Nisso, o Big Bar ia recebendo cada vez mais cliente, já com aquela movimentação típica de hora do almoço. Nesse meio-tempo, Claudete se levanta para ir ao banheiro, situado no pavimento superior do recinto. Sagaz, Wilson percebe a oportunidade e vai atrás, entrando no banheiro feminino junto com sua gata. Segundos depois, ele já estava com as calças no joelho e a velha com o pau na boca. Cinco minutos de xamego não foram suficientes para deixar Wilson excitado. "Porra! Tu queria o quê? A mulher tinha quase 60 anos, pesava 300 quilos. Por mais que ela fosse experiente, eu não conseguia parar de olhar para aquelas mochibas todas balançando. Não dava! Não subia!",explicou Wilson, dias depois. Percebendo a demora, a dona do bar começa a socar a porta do banheiro aos berros. "Seus sem-vergonhas!!! Estão achando que isso aqui é cabaré! Abre já essa merda!". Wilson abre a porta de sopetão e dela sai correndo, ainda levantando a calças. "Simbora Walisson. A casa caiu! Fodeu, moleque!". Walisson estava de pau pra fora também, embaixo da mesa, com a velha "massageando" o bichão. "Vamos embora porra!!!". Os dois heróis deixam o Big Bar enxotados e as velhas com os corações em frangalhos.

O relógio já marcava 14h, quando, finalmente, a duplinha chega na casa de Walisson. Ouviram sermão de dona América, Paty e até do cachorro e do papagaio. A pressão arterial do gordinho aquela altura já passava dos 19 por 12. Não deu outra. Foi direto pra cama e só acordou as 20h. Cabisbaixo e abandonado pelo comparsa, Wilson pega as chaves de sua Belina e desce o elevador. Mas a sorte realmente não caminha ao lado desses dois. Ao tentar dar a partida, Wilson tem mais uma surpresa. "Puta merda! Agora não! Por favor, não me deixe na mão...". A gasolina havia acabado. O irresponsável-azarado volta no apartamento para pedir uma ajuda ao seu amigo, mas ele já estava "desmaiado", inacordável. Wilson não teve escolha. Na maior cara lavada, pediu R$ 20 (Vintão) emprestado a Paty para colocar gasolina no seu possante. Ouviu mais um bocado de sermão, mas acabou conseguindo o dinheiro para o gás.

Já de noite, o telefone toca na casa de Walisson. Era o sargento Andrada. Quem atendeu foi sua irmã, Paty
- Alô? É da casa do Walisson?
- É sim...
- Aqui quem está falando é o sargento Andrada, da Polícia Militar, como vai a senhorita?
- Tudo bem. Posso ajudar?
- O seu irmão, o Walisson, registrou ocorrência na 5ª DP nesta madrugada, alegando que seu carro, um Gol Bola Geração 1, de cor vermelho-ferrugem, fora roubado nas proximidades de um clube onde aconteceu uma festa-show, correto?
- Isso mesmo.
- Fala para o espertão aí que o carro dele está exatamente no mesmo lugar que ele disse ter deixado...
- Não é possível...

Horas depois, a dupla de dois caras vão até o local indicado e encontram o veículo. Walisson olhou friamente para Wilson. Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos. Tempo esse em que eles lembraram tudo o que aconteceu, desde o momento que pegaram carona com Helen e Soraia, passando pelos momentos tensos na casa de Luana Piovani, cagada no banheiro chique, maratona no Parque da Cidade num sol de 32º, até o momento que foram enxotados do Big Bar. Tudo porque ficaram "sem" carro. Entraram no Golzinho e ficaram em silêncio por mais algum tempo. Até que Wilson vira para o amigo, dono do carro "roubado", e tenta consolá-lo. "Pense pelo lado positivo. Pelo menos a gente tem uma baita história pra contar, né?".

Sem mais para o momento

segunda-feira, 23 de março de 2009

Mestres dos esquemas furados - PARTE I

Você vai pra guerra com os amigos em uma festa-show, bebe todas, azara até a mulher do seu brother, mas não pega ninguém e é um dos últimos a deixar o recinto - depois de desligarem o som, é claro. Mas nos "acréscimos do árbitro", você e seu amigo ainda vislumbram uma ótima oportunidade para marcar um gol e brilhar na noite. Do lado de fora da festa, uma garota para o carro ao lado de vocês e puxa papo. Aconteceu com Wilson, um grande safado que nunca desiste de ir pra casa sem azarar metade da humanidade, e Walisson, um gordinho hipertenso que não está nem aí e enche a cara direto. Sempre vão pra guerra juntos. Mas nunca pegam alguém... "Oi meninos, tudo bem? Vocês podem me ajudar com minha amiga aqui? Ela está mal. Acho que bebeu demais". A motorista era Helen, uma morena das mais gatas. A bêbada era Soraia, uma gorda horrorooooooosa (toda gata tem uma amiga gorda, já perceberam?). Mas pra quem não pegou ninguém às 6h da manhã estava tudo ótimo. Apenas tinham que decidir quem seria o "pivô" e partiria pra cima da amiga gorda.

"Claro que a gente ajuda. Vocês podiam, inclusive, dar carona pra gente até nosso carro, que tá muito longe". Serelepes, Wilson e Walisson entram no Ford Focus das garotas e já começam os galanteios. A animação foi abreviada quando chegaram ao local onde Walisson havia estacionado seu Gol Bola geração 1, de cor vermelho-ferrugem. O carro não estava lá. Aliás, aparentemente, não havia mais nenhum carro num raio de 5 quilômetros. "Puta que pariu! Roubaram meu carro! Puta merda! Era pra ele estar aqui! E agora Wilson?!". As garotas - inclusive a bêbada - ficaram preocupadas e sugeriram levar a dupla de dois caras até a delegacia mais próxima. Wilson, um grande soldado da guerra brasiliense, nem nessa hora esqueceu da batalha. "Mas nós temos que chegar na delegacia como se fôssemos dois casais de namorados, de mãozinhas dadas e tudo mais. Se não os canas vão achar que nós não passamos de bebuns vacilões, enchendo o saco... Assim seremos mais respeitados". As meninas fingiram que caíram naquele papinho furado do safado e seguiram rumo a delegacia. Mesmo com o plano brilhante de Wilson, os agentes de plantão da 5ª DP não deram muita idéia para a tchurma e apenas registraram ocorrência, naquele esquema "não nos ligue, deixe que nós te liguemos".

Ao deixarem a delegacia, por volta das 8h, com o sol rachando, Helen saca seu Ray-ban da bolsa e sugere. "Nossa! O tempo está ótimo para vestir o bíquini e pegar um sol. O que vocês vão fazer agora, meninos? Querem ir a cobertura de uma amiga minha pegar uma piscininha?". Pra quem já estava todo fodido, um convite desse naipe aquela altura não era nada. E lá se vai a duplinha com Helen e Soraia. No caminho, ainda pararam no Pão de Açúcar e compraram duas caixas de Skol em lata, geladinhas. Mas quando chegam ao apartamento de luxo no Sudoeste, Wilson e Wallison se esqueceram de tudo que acontecera até ali e por alguns minutos ficaram sem palavras. Quem abriu a porta, só de camisolinha preta, foi uma loira gatíssima e toda simpática. "A mulher parecia a Luana Piovani", comparou Wilson. "É aqui mesmo que a gente vai brilhar, moleque!", animou-se Walisson. Mal entraram no apartamento e Helen vai direto para o quarto da "Luana Piovani". Ficam lá de portas fechadas por mais de 30 minutos, fazendo sabe-se lá o quê. "Acho que elas estava se pegando loucamente", deduziu brilhantemente Wilson. Depois disso, ele encostou na cadeira e deu uma cochiladinha.

Enquanto isso, no sofá ao lado, Walisson galanteava a gordinha Soraia, que ainda estava meio bêbada. E ela era toda sorrisos para ele. Chegou até a desafiá-lo em um joguinho chato de pseudo-cult. "Sou formada em Letras, sabia? Você gosta de poesia?". Na maior cara de pau, Walisson, que só conhece "batatinha quando nasce, esparrama pelo chão", disse que adorava poesias. A gordinha se animou e explicou como seria o joguinho. "Eu recito um trecho de uma poesia e você me diz de quem é, tá?". Sabendo que aquilo não ia dar certo, Walisson topou mesmo assim. Soraia mandou a primeira: "(...) Se a alguém causa inda pena a tua chaga/Apedreja essa mão vil que te afaga/Escarra nessa boca que te beija!". Walisson não pensou nem dois segundos e respondeu: "Eça de Queiroz!!!". Soraia caiu no riso, mas fez-lhe um afago consolador. "Não bobinho... é do Augusto dos Anjos. Quer mais uma?", perguntou passando a mão no rosto do gordinho, já desesperado com aquela chatisse. Antes mesmo que pudesse responder, a porta do quarto ao lado se abre repentinamente e de lá saem "Luana Piovani" e Helen, cada uma com um sorrisinho mais safado do que o da outra. "Gente a gente tá indo ali rapidinho e já voltamos. Algum de vocês dois curtem cheirar a branquinha?".


CONTINUA... (clique aqui para ler a continuação)

terça-feira, 17 de março de 2009

Guia RÁPIDO do show do Iron Maiden para iniciantes

Conversa entre eu - um cara que aprendeu a ouvir Iron Maiden há 19 anos - e um amigo, que só escuta Asa de Águia, Chiclete com Banana, Babado e coisas afins. SÓ ISSO! Aliás, o som mais pesado que ele escuta, de vez em quando, é Capital Inicial... Inclinado a vir para o "lado bom da força", com ingresso do Iron na mão, pede uma orientação. "Bicho... não conheço porra nenhuma de Iron Maiden. Quero que me passe as músicas que você acha que vai rolar no show para eu não ficar perdido". Com o setlist dos shows já realizados no Brasil em mãos, disse para ele: "Essas são as músicas que serão tocadas no maior show de todos os tempos. Baixe apenas essas músicas, ouça até seus ouvidos sangrarem e o cérebro ficar dormente e serás eternamente feliz". Para amplificar a orientação, ainda passei alguns humildes comentários sobre cada uma das faixas.

SETLIST SHOW DO IRON MAIDEN EM BRASÍLIA:

1. Aces High - covardia começar com essa... se não der tempo, decore pelo menos o refrão: "Run, live to fly, fly to live, do or die/Won't you run, live to fly, fly to live, Aces high". É provável que a gurizada mais afoita já termine essa música sangrando;

2. 2 Minutes To Midnight - um clássico populista; dá para aprender na hora;

3. Wrathchild - algo jurássico pra dar uma descansada. Fraca... (a não ser que já estejamos bêbados);

4. Children Of The Damned - a primeira balada. Uma balada nervosa, é verdade. Mas em se tratando de Iron, é uma balada. Primeira oportunidade para acender os isqueiros e quebrar tudo no refrão/solo;

5. Phantom Of The Opera - introdução macabra e é só. Hora de buscar mais uma cerva e dar uma mijadinha;

6. The Trooper - "The trooopeeeeeeerrrr!!!!" A melhor de todas. Essa periga implodir o Mané Garrincha;

7. Wasted Years - só a guitarra inicial já vale um "iiiiiiiiihhiiiiiiiiii!!!! Caraaaaaaaalhooooooo!". Preciso dizer algo mais?;

8. Rime Of The Ancient Mariner - quase uma ópera de marinheiro, com instrumental pouco comparável por aí. Tem 13 minutos e meio. Hora do cachorro-quente, cerveja e mijadinha;

9. Powerslave - se quiser tomar mais uma cervejinha, dá tranquilo. Inclusive, essa é melhor de ser ouvida com uma latinha na mão, encostado em alguma coisa para descansar. Só observando;

10. Run To The Hills - Depois da acalmada, a ressureição. Clássico, clássico, clássico!! É a hora que a gurizada se esgoela no refrão;

11. Fear Of The Dark - o maior clássico do sistema solar. Até minha filha de cinco anos saberia cantar essa música. Isqueiros acesos de novo e bagaceira no refrão;

12. Hallowed Be Thy Name - Essa é de chorar. Mais isqueiros. Catarse coletiva;

13. Iron Maiden - terreno preparado previamente e gurizada arrasada. Mas essa não dá pra ficar sem bater cabeça e brincar de "bateria imaginária" e "guitar hero";

14. The Number of the Beast - Isso é "o número do Fred" em inglês. Até os axezeiros já cantaram o glorioso refrão: "Six, six, six, the number of the beast". Demaixxx. Se ainda estivermos vivos, estamos mais do que no lucro;

15. The Evil That Men Do - Isqueiros na introdução. Só na introdução. O resto é acabação. (Deixem uma ambulância por perto);

16. Sanctuary - chamem os paramédicos e saiam da frente!!!!! Porrada total. E mais uma cerva por favor.... ;

E que venha a "Donzela de Ferro"

quarta-feira, 11 de março de 2009

Os generais no maior front da guerra noturna brasiliense

Se há um lugar nessa Brasíla-véa-sem-lei onde a guerra noturna não deixa derrotados é o Café Cancun - também conhecido como "Cabaré Cancun". Figura ao lado da Roda do Chopp e da A+.com no pódio dos maiores fronts de guerra candangos. Mas guerra meeeesmo. Só canhão. Como costuma dizer um amigo, quando questionado se "brilhou" por lá, a resposta é imediata. "Lógico. Lá é mole". Dia desses, João e Cassiano, uma "dupla do barulho", não precisaram nem mesmo entrar no Cabaré Cancun para receber os primeiros tiros na cara. Ao se aproximarem do front, já avistaram um sem número de catilangas "quicando" do lado de fora do ambiente. E lá a guerra não tem hora para acabar, terminar, esfriar, reiniciar nem nada. É na mesma pegada do início ao fim. Prova disso é a hora que eles chegaram no estacionamento: 4h30 (!!!).

Mas a preparação começou muito antes disso, lá pelas 23h. Em Brasília, temos que conviver com a desgraçada idéia do "toque de recolher". Os bares fecham no máximo 1h da manhã de domingo à quarta e as 2h, 3h nos demais dias. Mas como quem não tem cão caça com gato, há uma alternativa para essa imposição lusitana: postos de gasolina e/ou supermercados 24h. Nessa conjuntura, João e Cassiano até tentaram sentar numa mesa de bar. Mas ao passar em frente a um Big Box 24h desses qualquer, avistaram três dos seus camaradas e uma gatinha do trampo. "Opa! Vamos dar uma paradinha aqui e ver o que esses pulhas estão aprontando". Estavam aprontando nada, só tomando uma cervejinha tranquilamente após um longo dia de trabalho (no estacionamento do supermercado, às 23h30, mas tudo bem...). Mas por lá se estabeleceram até 4h!!!!!!

Nesse íntere, João chegou a receber uma curiosa mensagem de Deoclesiana. Às 2h45! "Oi... onde você está? Queria passar onde você estiver para te dar um abraço". João já havia tomado 8 latinhas de Bhrama Extra, mas pôde traduzir corretamente. "Olha o trem querendo!!!", comemorou, mostrando o celular para seu comparsa Cassiano. Deoclesiana, dias antes, havia se atracado com um outro amigo de João, o Souza. Por isso, João chegou a estranhar. Mas um bom soldado da guerra noturna não tem ética. Quinze minutos depois, João bulinava Deoclesiana freneticamente no estacionamento do Big Box. Tudo assistido por Cassiano. "Parti pra cima da loira mesmo. Tô nem aí. Só não agarrei de verdade porque todos foram embora e só ficou eu, Cassiano e ela. Até que a mãe dela liga e teve que ir embora...".

Com a "festa" minguada depois que os três camaradas, a gatinha do trampo e Deoclesiana foram embora, João e Cassiano, não satisfeitos, decidem continuar a bebedeira em outro canto. "Vamos ligar para o Eudes. Acho que ele está no Cabaré". Do outro lado da cidade, já na fila para pagar, Eudes sente o seu Nokia vibrar no bolso. "Cassiano chamando", brilhava no visor de seu telemóvel. "Moleque... irc.... vem pra cá... irc..... tem várias gostosas... irc.... indóooooooooceis saindo do recinto... irc....". João e Cassiano se armaram com mais duas latinhas e um saquinho de amendoim e se mandaram para o Café Cancun. Chegando lá, por volta de 4h30, não precisou nem entrar. Loiras, morenas, ruivas... calça e shortinhos socados, corpetes estourando e muito som automotivo no estacionamento.

Logo eles avistam Eudes e um amigo, o Chico, ambos completamente embriagados. Chico era um típico playboy do Lago Sul. Filho de pai autoridade, não trabalha, dirige um Civic e gasta horas na academia conversando sobre "suplementos". João descreveu a cena da seguinte forma: "O Eudes estava com um olho eternamente fechado e a boca mole. Já o Chico estava dentro do carro com uma baranga, mas que era uma gostoooooosa. Percebi que ela usava lentes de contato verdes. A amiga, que tentava animar o Eudes, era uma morena no melhor estilo Gretchen, com calça de cetin coladinha, salto e blusinha de onça. Piriguete total. Resumindo? Duas figurinhas típicas do Cabaré Cancun", detalhou Cassiano, com a autoridade de quem já se embrenhou muitas vezes nas "trincheiras" do Cabaré.

Meia hora depois, Chico sai do carro e vai de encontro com os três amigos. Eles o recebem da seguinte forma: "Que porra é essa moleque?! O que tu fez com sua camisa?!". Chico não percebera, mas a baranga que ele comeu dentro do carro estava menstruada, o que deixou a camisa do bombadinho toda manchada de sangue. Era só o início de uma série de acontecimentos hollywoodianos. Pouco depois, já com o sol despontando no horizonte e operários humildes à espera do precário transporte público nos pontos de ônibus, o último carro deixa o estacionamento do Cabaré. Cassiano não hesita em ligar o som do seu humilde Chevette, ano 77. A trilha sonora? MC Créu. Eis então que surge das sombras Colombo, um velho bonachão, barrigudo, calças caindo, terno surrado e gravata frouxa, no melhor estilo "O Rei do Gado" ou "vereador rico do interior". Completamente embriagado e um Souza Paiol no canto da boca. Ao cumprimentar o grupo, Colombo saca um pentinho do bolso da calça e começa a pentear seu bigode de responsa. Uma peça rara. Não demorou muito para já estar enturmado com toda a rapaziada, principalmente com a "gata" de Chico e a amiga-genérica-da-Gretchen.

Todo cheio da propriedade, Colombo se apresentou como fazendeiro. Minutos depois, político. Em seguida, psicólogo, advogado, médico, jornalista, empresário... Não sabia nem mais quem era. As mulheres logo se simpatizaram com o velhote e passaram a dançar agarradinho com o senil, que deixava o tempo inteiro seu "cofre" obsceno à mostra. "Ai meu Deus! Ele está sem cueca!", gritou assustada a genérica da Gretchen. "Estou mesmo, olha aqui o tamanho do bichão...", devolveu, balangando seu instrumento com prazo de validade vencido há anos. Dono da situação, não parava de dar "sardinhas", ou melhor dizendo, "(mo)chibatadas" com sua trolha na bunda das Cancunzetes. João, Cassiano, Eudes e Chico só observavam a situação.

Chegou um momento que até os donos das carrocinhas de cachorro quente se mandaram e com elas as cervejas. Hora? 6h50. Todos seguiram para a última etapa da bagaceira. Postinho de gasolina do Lago Sul. Colombo, sem pedir licença, entra no Civic do Chico junto com as garotas. O velho bonachão estava frenético - apesar de não conseguir pronunciar absolutamente nada inteligível. No posto, tome cerveja. Dessa vez, de garrafa. Os caras usaram as latinhas vazias como copos. Não precisa nem dizer que Colombo dominou todos os debates que foram surgindo. Até como crítico musical ele chegou a se credenciar.

Enquanto isso, as Cancunzetes, no cio, dançando até o chão perigosamente. Ao lado delas, João e Cassiano, mantendo a tradição dos bêbados, não paravam de dar rolamento. A pista suja de óleo e gasolina serviu de tatame. Depois do terceiro rolamento, um surto de sobriedade baixa em João, que olha para o sol rachando e, sabiamente, pondera. "Puta que pariu! O que diabos estou fazendo aqui?". O jovem mancebo deveria trabalhar horas depois. Ao se despedir do bonde da alegria ainda recebe uma proposta indecorosa de Colombo. "Aí gordinho, rola uma caroninha? Eu estou ali no Garvey, nem sei como chegar lá". João, que não é bobo nem nada, se aproveita do estado emocional de Colombo e sugere que fique mais, porque tem coisa boa ali pra ele. "Bicho, fica mais aí, porque as duas me confidenciaram que querem trepar contigo até te matar". Colombo arregala os olhos, encara João e num gesto simplório revela sua decisão. Ele saca novamente o pente do bolso, dá mais uma penteada em seu bigode e se vira para as Cancunzetes. João não quis mais saber. Bateu em retirada, sem olhar no retrovisor.

Dizem que Colombo faturou as perigas. Cassiano dormiu durante três dias seguidos. Chico e Eudes.... esses ninguém tem notícias. Mas a camisa suja de sangue do bombadinho, ainda hoje pode ser vista pendurada na árvore do postinho.

Sem mais para o momento