Duas coleguinhas de jardim de infância - quatro aninhos cada uma - se dão aos mãos e se colocam a rodar, rodar, rodar e rodar. Morrem de rir daquela singela diversão. Se eu visse essa cena acharia lindo, mas logo sentenciaria: "vai dar merda". A poucos metros dessa brincadeira pura de criança, um destrambelhado, da mesma turma e idade, corre a mil por hora olhando, sabiamente, para o alto. Definitivamente eu diria: "vai dar merda, com certeza!". E deu. O destrambelhado se choca com uma das duas coleguinhas, a de cabelos dourados, levemente enrolados nas pontas, que responde pela alcunha de Mel. Saldo da colisão: um para cada lado. O destrambelhado machucou o queixo. Mel teve um corte feio na região que fica entre os lábios superiores e o nariz (não sei como se chama essa parte, humildemente), que dava pra ver o que havia no outro lado. Desespero, sangue, lágrimas e gritos. Muitos gritos.
A Tia Sandra, coordenadora da educação infantil da escola, age prontamente, pega no colo a pequena Mel com seus 15 quilos e presta os primeiros socorros. Em seguida, passa a mão no telefone e liga para o papai aqui, já de saída para o trabalho. "Oi, tudo bem? Olha só. Estou te ligando porque aconteceu um pequeno acidente com a Melissa...". Institivamente já comecei a me tremer todo. "Fez um pequeno corte na boca...", quase mijei nas calças quando ouvi isso. "Acho que não precisa dar ponto (...) mas não precisa se preocupar. Ela já está bem, mas está chamando pelo 'papai'". Larguei tudo, entrei no carro e saí arrancando, rumo à escola. Ao entrar na sala da coordenadora, me deparo com um "bolinho" de gente, todo encolhido, no colo da Tia Sandra. Detalhe: ela estava quietinha, sem chorar, mas ao ver o papai se desmancha em lágrimas e sai correndo em direção ao colo: "papai... tá doendo.... buáááááá". Manhosa? Acho que não. Só não queria sair do colo do papai.
No hospital começa todo um processo. Sabia que seria necessário "costurar" aquele rasgo causado pelo sábio destrambelhado que corre olhando para cima. Sabia também que o volume do choro dela ultrapassaria os 300 decibéis e tentei bancar o psicólogo. "Filha, é o seguinte. O médico vai fazer um curativo no seu dodói. Não é pra ter medo. Você tem que aguentar. Você só chora porque ACHA que vai doer. Não tenha medo, tá?". Tentava quase entrando em pânico junto. "Mas e se doer? (...) Você sedula (segura) na minha mão". Sabia que ia ser dureza. Na mesa de cirurgia, uma injeção do tamanho da cara dela. "Isso é só a anestesia, tá Melissa? Vai doer agora...". Quase dei um tiro na cara do médico, tamanho o tato que ele teve com a criança, que, claro, entrou em pânico. Gritava copiosamente, como se alguém estivesse espancando a coitadinha. É nessas horas que a gente percebe o quanto ficamos babacas com a paternidade. Os olhos se enchem de lágrima. O cara falta se cagar todinho. Se ele não é espada, acaba se revelando. Mas é preciso se segurar.
Três minutos depois e muitos berros que ecoaram por todos os corredores do hospital, lá estava o primeiro ponto da vida da pequena Mel. Pode ser o primeiro de vários. Tomara que tenha sido o último. Não é nada legal passar por isso. Fico imaginando o quanto meus pais sofreram com a minha infância. Foram cinco pontos na testa; Cinco pontos na barriga! (causados depois que uma lança daquelas grades que ficam em frente às casas deslizou facilmente para dentro da minha barriga); dois dentes quebrados; vários ossos fraturados (perdi as contas de quantas vezes tive de engessar alguma parte do corpo); e por aí vaí. Queira o Todo Poderoso que a pequena Mel não puxe ao pai nesse aspecto. Se por conta de um mísero ponto eu quase morri, não quero imaginar o que vai acontecer comigo se ela se acidentar de forma mais crítica. Ainda bem que sou espada... né?
Sem mais para o momento
10 comentários:
Como vc bem disse no título desse post: "Coisas de pai".
Agora diz aí: Tu tava apagado ontem no fut, hein...
Sem mais para o momento...
começaram as provocações...
Mas deve ser foda, mesmo. Difícil deve ser se segurar, e não brigar com o médico nessas horas...
Lê,
VC não pode ter medo (conselhos de mãe metida a psicologa). A criança sente!!! ahhaha
Filhos...
Hoje o Caio estava pulando com um lápis na boca e... "vai dar merda"!!! Adivinha....
Ainda bem que não foi fundo!
Cuida bem da Mel, heim!!! beijinho de pai e mãe é o melhor remédio!
Beijos!!!
Caraca....até deu vontade de antewcipar o projeto sem volta, de virar pai....fiquei tocado.
Espero que ela fique boa logo (talvez ela sare antes de vc....rs)
Tks
né?
O meu pai inventou a injeção sem agulha. Aquela merda doía para caralho, mas ele ficava me perguntando porque eu chorava se nem agulha tinha ali...e o pior é que via a agulha mas nao podia acreditar que meu pai tava mentindo para mim!
viiiiiiiisssssssshhhhhhhhhhhh!!!!!
guerra de comidaaaaa!!!
PS: a "comida" aqui nada tem a ver com o fato de vc ser espada ou não. Né?
segundo o anonimo, timbu, "vc foi infeliz". ta feliz agora?
Sempre fui meu caro. Sempre fui. Mas de vez em quando aparecem uns manés que não tÊm envergadura moral para dar a cara a tapa.
Sem mais para o momento...
P.S.: Segunda-feira texto em homenagem a essa Brasila-véa
Caralho, tô fodido mesmo... A expressão "sou espada" tá obsoleta, caro Leandro. Leia-se agora "sou facão". Não tá bom não... No mais, melhoras pra linda Mel! Xau
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