Sabe aqueles botecos/pubs com banheiros de filme no melhor estilo Kids ou Trainspotting? Deixe-me descrever: porta pichada com expressões indecifráveis e adesivos de bandas de rock. A luz interna não é das comuns. É escura, geralmente vermelha. A parede de azulejos (originalmente) brancos escorrem uma espécie de muco que varia entre o marrom e o verde - fruto dos dois meses sem nenhum tipo de limpeza. O vaso, sem tampa, claro, tem uma crosta marrom no interior e nas beiradas. É daqueles que se você tiver a audácia de sentar para dar uma cagadinha ganha de "presente" uma pereba nas coxas. O chão.... todo mijado, quiçá cagado. Para completar, nunca tem papel higiênico ou toalha para secar as mãos. Resumindo: a filial do inferno.Agora passemos ao Ângello, 19 anos. Rapaz discreto, educado, quase sempre às margens das arruaças dionísicas de seus amigos - que conhecera fazia pouco tempo por meio de uma amiga em comum, a Piu, pela qual Ângello nutria uma espécie de namoro burocrático. Eles só discutiam e saíam juntos, mas não se pegavam. Esses novos amigos faziam de Ângello um verdadeiro peixe fora d´agua. Lembro bem da primeira vez que conhecemos o cara. O ano era de 1999. Cerca de dez pessoas sentadas à mesa por três horas no antigo 4A - bar na Asa Norte. O cara, sempre muito calado, não coloca uma gota de cerveja na goela. "Vai uma cerveja aí cara?", pergunta um dos arruaceiros ao mancebo. "Não, não... valeu. Eu nunca bebo. Não gosto...". Grande equívoco. Há ditados que são fatais, como aquele "nunca diga nunca".
Pois bem. Ângello não sabia com que tipo de gente estava se metendo. Continuou a sair com os arruaceiros. Passou a ser figurinha fácil nas rodas de bar. Com ou sem a presença de Piu. Mas sem nunca beber. Mas... como "água em pedra dura tanto bate até que fura" (mais um ditado que é fatal), Ângello passou a tomar seus primeiros goles. Começou com a cerveja. Passou para a vodka. Seguiu para a tequila. Retrocedeu para a cachaça e, por fim, o Dreher, a sua grande kriptonita.
Para desgraçar de vez a vida daquele filho de vó que era o orgulho da família, a rapaziada com que Ângello se envolveu tinha o "comando" da Zoona Z Rock Pub, um reduto de beberrões, roqueiros, motoqueiros, maconheiros, cheiradores, fãs de sinuca e farra até o sol raiar. Era tudo muito bem articulado. Um detinha o comando da bilheteria. Outro do caixa. O terceiro tomava conta do som. E a desgraça maior: eu era o barman - suponho que foi ali que tudo começou (a minha dedicação à arte de degustar drinks). Aquela altura do campeonato, Ângello já bebia como poucos. Ao lado de dois arruaceiros da gangue, Silva e Getúlio, voltava ao balcão a cada 15 minutos. "Faaaaaaaala brother! Coloca mais uma dose de Dreher aí, mas dá aquela choradinha hein!". Os caras derrubaram uma garrafa e ainda tomaram umas cinco doses de tequila.
Já se passavam das 2h da madrugada. Eu lá atrás do balcão tomando minha cervejinha e servindo os clientes. De repente chega Silva, um dos arruaceiros que acompanha Ângello nas doses cavalares de Dreher. "Cara... é sério. Me dá um pouco de sal, pelo amor de Deus. O Ângello está desmaiado no banheiro", implorou Silva, pra lá de Bagdá. Deixei meu colega de trabalho cuidando do balcão e fui lá dar aquele "confere" no banheiro... aquele do início da história. Igualzinho. Vou lá, forço a porta e nada. Bato e nada. Eis que chuto a porta e encontro Ângello, sentado no chão mijado, abraçando o vaso entre as pernas. A cabeça encostada no ombro, todo vomitado. "Puta que pariu, que dureza!", foi minha primeira reação ao ver a cena e sentir aquele cheiro de chorume (o "suco" do lixo). Chamei reforço e "rebocamos" o rapaz inválido para fora da espelunca.
No estacionamento, os amigos entupiram o bêbado de água e lavaram a cabeça dele sem parar. Getúlio, o outro arruaceiro que derrubou a garrafa de Dreher com Ângello, teve a brilhante idéia de colocar o pudim de cachaça para dormir na carroceria do seu carro, uma Saveiro estacionada perto dali. "A gente deixa ele aqui. Está tranqüilo. É só puxar a lona da carroceria e deixar um pouquinho aberta para ele conseguir respirar". Todos concordaram de bate-pronto e voltaram para o pub. Cerca de uma hora depois, chamo Getúlio e Silva no balcão do bar e sugiro irmos até o carro verificar se o desagradável está vivo. A missão oficial de "resgate do soldado Ryan" parte até o estacionamento e vê a seguinte cena: a lona da Saveiro estava levantada. Ângello ainda permanecia respirando na carroceria do carro, mas com um detalhe comprometedor: suas calças estava arriadas até o joelho, deixando à mostra sua cueca branca. Na hora, a gente não quis nem saber o que tinha acontecido. Tiramos o cara da caçamba e o colocamos dentro do carro - o que devíamos ter feito desde o início. Ele dormia como uma criança.Retornamos novamente ao pub. Já eram quase cinco horas da manhã. A pista de dança ainda mantinha uns 4 ou 5 sobreviventes daquela noite. De repente, olho para a porta e não acredito no que vejo: Ângello entra no recinto, sem cambalear nadinha (!!!). Com o cabelo todo molhado, porém, cuidadosamente penteado. A camisa já era outra. Disse pra gente no outro dia que achou a vestimenta dentro do carro do Getúlio e, por isso, jogou a dele no mato. Com um sorriso meio cínico no rosto, aproximou do bar, bateu com a mão no balcão, olhou para um lado e para o outro e solta essa: "me dá uma cerva. Agora!". Como em todo lugar é o cliente quem manda, servi uma long neck pra ele. O cara ficou bebendo ali encostado no balcão, sem dar uma palavra. Apenas observava o movimento, até a hora de ir embora. Ninguém nunca descobriu o que de fato aconteceu naquela carroceria da Saveiro. Ele jura que sua última lembrança é da quinta dose de Dreher. E Ângello, que dois meses antes era um legítimo filho de vó, virou o maior bebedor da gangue. E eu, Getúlio e Silva fomos pra casa com uma única certeza: criamos um monstro...
Sem mais para o momento
7 comentários:
História sensacional!
Sem mais para o momento...
PS: É por isso que eu não bebo!
imagine a ressaca do rapaz!
Fenomenal!!!!! Ainda bem que DUdu e eu paramos de beber....
sensacionalismo o caralho!!! rsrsrs
foi exatamente desse jeito! estava presente e lembro com riqueza de detalhes daquela noite!
Grande onions!
será que Piu ainda existe nessa galáxia? rs
Pobre coitado...
Por essas e outras que Wander Wildner passou a cantar "eu não bebo mais como eu bebia"...
Essa é uma das melhores do blog!!!
coitado... o cara tava de final mesmo!
E como conseguiu voltar e beber cerveja???
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