"Senhor, pelo amor de Deus! Eu preciso usar o banheiro. Agora!", suplicava a um guarda o pobre Cameron, com o estômago embrulhado pela assustadora quantidade de cachaça que bebera na noite anterior. "Banheiro só lá em cima, meu amigo", respondeu o guarda da estação central do metrô de Brasília, com uma empáfia típica de sujeitos que se acham acima da lei. "Não vai dar tempo. Eu preciso usar esse banheiro aí atrás de você. Agora! Tenha piedade!", insistia Cameron, já em posição de "interrogação", com um casaco imundo, embolado entre suas mãos, e tomado pelo desespero. "Desculpe amigo. Não posso fazer nada. Esse é só para funcionários do metrô". Pobre guarda... Mal sabia que aquilo lhe custaria caro. Muito caro.
DOS LIVROS À LARICAMas antes de conhecer o desfecho dessa trágica aventura, cabe ilustrar as viradas na vida de Cameron. Sua história pode ser dividida entre antes e depois da Herbalife. Antes: o maior nerds da região. Do tipo que sentia tesão em estudar como se dava a "eristoblastose fetal". Ou ainda, daqueles que ficavam putos quando não atingia a nota máxima numa prova. "Mas que droga. Só seis notas CEM de doze possíveis...". Passou de primeira no vestibular da UnB, no curso mais concorrido na época: engenharia mecatrônica.
Mas eis que algo acontece em sua vida. Cameron sofre um tipo de lesão no cérebro, que parece ter sido a causa de uma brusca mudança de comportamento e personalidade. Passou dias numa cama de hospital, ligado a eletrodos e monitorado por máquinas. Nunca
descobriram o que de fato ocorrera. Mas algumas coisas eram certas após ter recebido alta: já não estudava como antes; já não se interessava pelas mesmas coisas; o estereótipo de nerds foi ficando pra trás, pouco a pouco; largou a faculdade; enfim, chutou o balde com força. O pior: mergulhou de cabeça na maior furada que um ser humano pode entrar. A Herbalife. Inocentemente, acreditou que poderia ganhar rios de dinheiro com aquilo. Tentou inclusive "arrebanhar" seus amigos para esse negócio escuso. Só um deles, o Souza, chegou a se iludir, mas, felizmente, pulou do barco antes que ele afundasse.FAROESTE CABOCLO EM FORTALEZA
O auge da sua mudança de comportamento e estilo de vida foi ter largado a faculdade de vez e pegar a estrada para Fortaleza (CE), onde teria ido, a princípio, para morar com seu papai. Mas não foi só isso que aconteceu. No topo da pirâmide da Herbalife, já tinha um sem número de trouxas sob sua orientação, vendendo e comprando aquelas fórmulas supostamente mágicas, que fazem emagrecer 300 quilos em uma semana. Empolgado, montou até uma "empresa" de consultoria (!!!), batizada curiosamente de "Encontro com o destino". Promovia palestras, workshops e dava consultoria a empresas e pessoas interessadas no ramo de negócios!!!! E cobrava caro por isso!
A página principal de seu website estampava uma foto do sujeito, que dava a pinta de ser um cara sério: "Cameron, formado nisso, nisso e naquilo. Já trabalhou com fulano, ciclano e beltrano...". Mas o melhor era: "já leu mais de 100 livros na área", quando, na verdade, só havia lido O Senhor dos Anéis, O Hobbit, Harry Potter e otras cosas que só nerds lêem. Mas o negócio "promissor" de Cameron passou a ser visto com desconfiança por toda a sociedade. "Clientes" mais espertos passaram a ventilar a idéia de charlatanismo e denunciaram às autoridades aquele negócio escuso. Cameron quase foi preso por falsidade ideológica. Foi obrigado a devolver o dinheiro das palestras, arrumar as malas e voltar para essa Brasíla-véa-sem-lei. Ele já não era mais aquele nerds fã de eristoblastose fetal. Era quase um estelionatário.UM ESTRANHO NO NINHO

De volta ao cerrado, Cameron toma porre atrás do outro. Seus amigos de segundo grau não acreditam no que presenciam. O cara passou a ser um bebedor e fumador de coisas legais quase que profissional - claro, sempre acompanhado de seus parceiros Souza e Zappa. Num desses episódios de chutar o balde com força, ele, um ex-estudante de engenharia, consegue furar o esquema de segurança do Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação (Enecom), que só permitia o ingresso de credenciados. Dois de seus amigos, estudantes legítimos de Comunicação e devidamente credenciados, bebiam tranqüilamente suas cervejinhas no campus da Universidade Católica, em Taguatinga (DF), quando avistam Cameron, completamente embriagado, correndo e gritando no meio da multidão. "Amigos!!!!! Eu encontrei vocês!!!! Unbelievableeeeeeeee..." - aliás, "unbelievable" ("inacreditável", em português) era sua palavra favorita naqueles dias. Deve ter repetido isso pelo menos umas 579 vezes em dois dias.
Fedendo a macaco morto a bofete, ele abraça os amigos e começa a gritar. "Eu sou a Denise!!! Olhem!!! Eu sou a Denise!!! Estudante de jornalismo da PUC-MG". Era o nome estampado na credencial que ele carregava no pescoço. Denise era uma amiga gorda, lá de Minas, que ele jura não ter dado uns amassos. Os caras fingem achar aquilo tudo normal e começam a beber com o "ex-nerds".
STRIKE ATRÁS DE STRIKE
Após algumas latas de cerveja e cigarros que abrem a mente das pessoas, Cameron senta numa roda de amigos. Uma das meninas da roda curtia o show da noite, de pé, de costas para aquele marginal embriagado e fedorento. Sem a menor cerimônia, jurando que estava arrebentando, ele aperta a bunda da pobre garota e levanta, com uma vontade nunca vista nem mesmo em filmes
pornôs. "Tapeeeeeeefe". Foi automático o tapa na cara. Com o dedo em riste, a garota - até então grande amiga dele - destila empropérios para Cameron, que só ria, na maior cara de pau. Teve que ser retirado pelos dois amigos que o encontrara no início da noite e levado para os aposentos de sua amiga gorda de Minas - na verdade, as salas de aula da universidade foram transformadas em quartos, tomados por colchões no chão. Todo mundo misturado. Alguns bêbados não estavam nem aí e mandavam ver na mulherada ali mesmo, no meio de todo mundo. Uma putaria. Foi nessa selva que os caras largaram o pudim de cachaça por lá e voltaram para o show.DAY AFTER
Por volta das 5h da madrugada, os camaradas que retiraram Cameron do recinto decidem ir embora. No quarto onde seus colchonetes estavam, também estava hospedado uma turma de São Paulo, outra do Rio, uma de Goiânia e a maioria de Brasília. Quando o sol já dav
a suas caras, surgem os primeiros comentários. "Puta, meu! Olha só quem tá aqui. O cara mais chato do Enecom, manô! A maior zica aí", reclamava uma paulista, se referindo a ninguém menos que Cameron. "Qualé! Eu estou aqui, deitado no chão puro, entre meus amigos e esse negão viado de São Paulo. Não tô incomodando ninguém...", rebatia Cameron. "Mas... se você quiser eu posso dormir aí no seu colchão, porque esse negão aqui é um viadaço... ", completou o bebum, no limite extremo da inconveniência. Seus amigos fingiram que não ouviram e voltaram a dormir.LOST
Seis horas depois, os caras acordam. "Você viu o Cameron por aí? O espertão veio parar aqui. De manhãzinha estava xaropando com as paulistas e o 'amigo' delas". Cameron havia sumido. Sem deixar pistas. Nem as paulistas, nem a amiga gorda de Minas tinha notícias dele. O celular não atendia. Em casa, ninguém sabia dele há dois dias. Nem mesmo a mãe, a ex-namorada-eterna-ficante, ou os demais amigos. O dia foi passando. Os dois caras foram ficando cada vez mais preocupados. A mãe do Cameron ligou para eles umas 300 vezes para saber se já tinham notícias do paradeiro do bebum. E nada. Foram saber do cidadão sete dias depois.
ENQÜANTO ISSO...
... não muito longe dali, Cameron tentava heróicamente chegar em casa. Segundo o próprio relatou sete dias depois, ele fora expulso do quarto pelas paulistas e o tal "negão viado". Tropeçando a cada cinco metros, teve a brilhante idéia de ir pra casa. Sozinho. Saiu do campus da Católica, por volta das 9h, foi andando até a estação de metrô de Taguatinga - que devia estar a uns 4 quilômetros dali e significa uma eternidade para um bêbado. Quando conseguiu entrar no trem (quase 3 horas depois), começou o primeiro drama. O vagão estava lotado, sem lugar para sentar. Foi balançando de Taguatinga até a região central de Brasília - uma meia hora de viagem. Só podia dar merda. Nos primeiros cinco minutos, engoliu o próprio vômito umas três vezes.
Olhou para um lado, olhou para o outro... foi batendo o desespero. Na quarta regorgitada, não suportou a pressão. Embolou o casaco na mão, tentando fazer dele um saco, e despejou tudo na sua jaqueta, sem deixar cair uma gota daquele líquido cheiroso no chão. A cena se repetiu outras três vezes. E nada da estação central chegar.A VINGANÇA DOS (ex?) NERDS
Ao desembarcar em seu destino final, saiu correndo em busca de um banheiro para poder vomitar o resto e se lavar. Estava o próprio retrato da desgraça. Procurou ajuda a um guarda. "Senhor, pelo amor de Deus! Eu preciso usar o banheiro. Agora!", suplicou o "boquinha de cemitério". "Desculpe amigo. Não posso fazer nada. Esse é só para funcionários do metrô". Emputecido com a má vontade e a intransigência daquele babaca fardado, Cameron deu as costas, subiu a escada rolante que ficava logo ao lado do guarda. Lá de cima, olhou sorrateiramente para os lados e para o guarda, lá embaixo, decidido a dar uma lição naquele malcriado. Sem cerimônias, estendeu os braços no vão e balançou o casaco, despejando na cabeça do guardinha um misto de lavagem, feijão mastigado, carne, cachaça, cerveja, "matinhos tragáveis" e bílis. Saiu correndo, perseguido pelo guarda. A vontade de vomitar passou e até a embriaguez. Conseguiu despitá-lo e seguiu seu rumo.
Cameron saiu perambulando pelas ruas até a ressaca passar e
pensou na vida que tivera até ali: de nerds bitolado a arruaceiro cachaceiro, passando por um quase-estelionatário. Hoje, não é o mesmo bêbado mirim, que toma tapa na cara de uma amiga ou incomoda turistas, a ponto de ser expulso de um recinto. Ainda adora fazer uso de substâncias que expandem a mente e facilitam discussões sobre temas que atormentam a sociedade. Tampouco é o mesmo nerds. Aliás, chama pra porrada quem ousar chamá-lo assim, ainda que carregue no porta-luvas do seu Escort XR3 conversível, um áudio book do Harry Potter...Sem mais para o momento
14 comentários:
Meu rapaz, ainda estou limpando as lágrimas.UAHUAHUHuhauhuHUHAU. PQP......definitivamente, você tem talento inquestionável pra coisa. Não pare, por favor. Agora, e quanto aos saudosos contos do B@#$% $% $riz e do Co#$% d@ Bi@#$%? Tá achando que vou deixar barato?
auehuaeheauhea
boquinha de cemitério é foda...
Lamentável!
Sem mais para o momento...
que momento!
disso tudo so tiro uma conclusão: este blogueiro é cercado por bons bebedores!
prova disso são os posts abaixo... quase todos relatando histórias de bêbados!
ahahuhuahua
Por isso mesmo esse espaço foi batizado de "O Taverneiro", meu caro Demolition...
Sem mais para o momento
hihihi.... adorei!
O tìtulo foi criativo tb...rs
e eu te linkei, eu quem nem bebo! hahhaha
brincadeira! n dá pra n beber, esse mundão pede um CAXAXA! rs
beijinhos
Ué, sumiu!
eaheauhaeuhaeueahuaeeauheauheauea
**pausa para respirar**
heaueaueaheauheaueaheaeauheaueaheh
Ok, quase arranjo uma confusão séria com o meu chefe tentando falar e eu me rolando no chão!!! Li o texto enquanto ouvia Bohemian Rhapsody (EU FAÇO O PIANINHO!!!).
... definitivamente, hoje à noite tomarei um Kuesmaroto Flamejante!
Genial, Taverneiro!
PS:http://pt.wikipedia.org/wiki/Eritroblastose_fetal :P
que show! eu já imaginava que pudesse ser mesmo veridicas as historias, mas...Agora que gostei mais ainda. Espero n cruzar com vc meio, eeeeeeeeeeenfim, e parar aqui! rs
beijinhos
ah uma cirrose!
hauahiuahuia
História fantástica!!!!
Pelo amor de Deus, quem é esse cara???????
Essa história é uma das melhores!!!!
E viva a bebida!!!!
Reverenciado pelo inesquecível Pangaré?!?!?!
Se bem me lembro, esta foi a mistura daquela noite:
- Rum;
- Cerveja;
- Cachaça PITU! (Pitu pegou você?);
- Absinto;
- Vinho;
- mais cerveja;
- vodka;
- suco de laranja.
... o problema foi o suco!!!!
Excelente!!! A foto do Curtindo a vida adoidado fecha com chave de ouro!!!
"..é pelo teatro que eu pego o coração do rei.."
Abrem-se as cortinas e os bobos entram em cena... se no Rei Lear de Shakespeare o bobo da corte era o indivíduo que usava sua tolice para denunciar os grandes desafios do rei e os problemas do reino, hoje em dia vemos no blog do tolo um bobo apenas vomitando suas bobagens...
Hamlet, esperto, diria que chamar um dedicado colega de nerd "e tentar convencê-lo de que isso é ruim" é a estratégia do bobo moderno, que tenta convencer algum desavisado colega de que ser bobo-preguiçoso é melhor do que ser um nerd-dedicado... afinal, pensa ele, nós bobos somos a vasta maioria !!!
Daí não vemos mais em atividade um Zico, grande nerd dos gramados...e podemos entendemos melhor o quão raro é um Silvio Santos,um famoso nerd dos negócios...
...enquanto bobo no boteco e nas tavernas a gente encontra aos mooooontes... Porque os bobos sempre andam em bando...Álvares de Azevedo poderia dizer...
Macário diria que Cameron provavelmente é hoje um cara admirado pelo seu caráter e inteligencia, dirige o carro dos seus sonhos, deve ganhar mais por mês do que 99% da população do país, e isso tudo, arrisco eu a dizer, antes dos 30 anos ....
Ahhh se eu pudesse voltar no tempo...eu queria ter escolhido ser nerd, ao invés de tolo...
...mas hoje eu ralo pra caralho, ganho pouco, e não me resta mais nada do que jogar conversa fora nas mesas de bar, comendo amendoim, com meu cérebro de amendoim...
Mas como bobo mestre, faço a minha corte com a minha corte, e prometo que serei um bobo de 40 anos profissional...
...e desde hoje sempre que eu recebo meu salário a partir de agora me vem na cabeça a tal frase de um famoso nerd chamado Bill Gates...
"Presta muita atenção em quem vc chama de nerd, vc ainda vai trabalhar para um deles"
Link útil:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Curinga
Sem mais para o momento... V.F.
Postar um comentário