terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A ÚLTIMA VALSA

Ronaldo era um sujeito boa praça, mas também um grandissíssimo filho da puta. Era do tipo que fazia amizades rapidamente e as cultivava como ninguém, embora gostasse de sacanear a molecada. Quando encarnava em um deles, não parava enquanto não tirasse a "vítima" do sério. Filho de Dona Inez, uma mãe dedicada, católica fervorosa, que dava de tudo do melhor para sua cria. Não lhe faltava nada. Era o xodó de Dona Inez, mesmo que ele não fosse o melhor filho do mundo. Pelo contrário, dava muito desgosto, na verdade. Botafoguense dos mais fanáticos, não perdia um jogo do seu time de coração, nem mesmo quando a peleja era contra o famigerado Madureira. Acompanhava atentamente as narrações de Luiz Penido, no seu radinho de pilha. Fã de Slayer, Pantera e Sepultura. Aos fins de semana, curtia uma cervejinha com os amigos nas festas. Mas nada que extrapolasse a ordem natural das coisas de quase todo homem recém-saído da adolescência.

Mas Ronaldo passou por uma mudança brusca em sua vida. Por isso, aos poucos, foi entrando de cabeça na cachaça. Cerveja? Já não fazia tanto efeito em seu organismo. Começou por bebidas baratas, como Catuaba Selvagem, 51, Presidente, Natasha... mas, claro, a cerveja sempre estava ao seu lado. Numa de suas estripulias pós-bebedeira detonou o Santana ano 88 de seu velho. Bêbado, fez um "gato" no meio da entrequadra comercial. O carro que descia na mão contrária chapou na porta do passageiro, onde estava um amigo de Ronaldo (igualmente bêbado). Após rodar no meio da pista, o jovem engatou a primeira marcha e fugiu, catando ainda a traseira de outros dois carros que estavam no estacionamento. Acelerou fundo até se "esconder" no estacionamento de uma quadra residencial, distante dali uns 3 quilômetros.

- E aí velho... será que alguém anotou a placa do meu carro?- Cara... foi tudo muito rápido. Mas é melhor a gente dar um tempo por aqui.- Foda que eu detonei outros dois carros que nada tinham a ver, né?- É... você está na mão do palhaço agora, amigo...
Meia hora depois, a dupla de bebuns retorna a mesma quadra onde ocorrera o acidente, com o mesmo Santana ano 88, todo fodido, e com a mesma cara de pau. Estacionaram nas redondezas e foram até um bar que havia naquela rua. Ronaldo, cínico que só ele, perguntou ao garçom depois de pedir uma dose de Dreher: "E aí chefe... soube que rolou uma batida sinistra aqui agora, né? Ninguém conseguiu anotar a placa do filho da puta?". O garçom, todo solícito, dissera que dois caras gigantes pegaram seus carros e saíram à caça do infrator. Mas voltaram sem sucesso. Alívio para Ronaldo e seu amigo bêbado, que, a essa altura, estava todo cagado de medo de serem reconhecidos.

Coisas do tipo se repetiram um sem número de vezes. Quem não conhecia Ronaldo de perto, se perguntava como aquele garoto se tornara um grande inconseqüente. Chegou ao fundo do poço. Bebia em tradicionais bares pés sujos da cidade. Sozinho, em pleno meio-dia. Café da manhã? Velho Barreiro com cigarros Hollywood. Almoço? Cerveja com mais cigarros Hollywood. Jantar? Conhaque Presidente com muitos cigarros Hollywood. Dia após dia. Essa era a rotina de Ronaldo. Chegou a raspar a cabeça com gilete. Mergulhou nas drogas. Maconha? Era como cigarros comuns. Fumava vários fininhos ao longo do dia. Vivia de "cabeça feita". Por várias vezes, amigos tiveram que buscá-lo no bar para levá-lo em casa.

Três meses antes de tudo isso, não fazia nem metade das besteiras que vinha fazendo. Aliás, não fazia nenhuma. Passou a fazer desde aquela festiva noite, onde era comemorada a formatura de um primo. Ele, que não era muito de dançar, foi tirado por Dona Inez para uma valsa. "Meu filho, dança com sua mãe pelo menos uma vez na sua vida?". Meio sem jeito, acabou aceitando para não deixar a mãe na mão. Ela o abraçou. Ele sorriu. Na metade da valsa, ela desmorona. Ronaldo ainda consegue evitar que sua mãe caia pra trás. Ele a segurou firme em seus braços, ajoelhou com ela em seu colo, e chorou a morte de sua mãe... ali mesmo, no meio do salão, diante de todos os convidados. Diagnóstico: enfarte fulminante. Nos braços do seu único filho que nunca havia dançado com a mãe. Desde então, nunca mais foi o mesmo. Passou a beber e a fumar como nunca. Raspou a cabeça com gilete. Bateu o Santana ano 88 de seu velho. Quase enlouqueceu. Buscou refúgio no fundo do copo de cachaça. Sem mãe, hoje sofre com uma cirrose...

Sem mais para o momento

4 comentários:

Anônimo disse...

Triste!
Apenas isso.

Sem mais para o momento...

Paulinho Mesquita disse...

que trágico moleque!
essa fugiu do perfil do taverneiro com histórias engraçadas de bêbados que se fodem sozinhos...
se hj ele fosse um recuperado e desse aulas voluntariamente em um hospital para alcoolatras eu diria que era um texto do marcelo abreu...

DB disse...

é o fim de todos nós.

Anônimo disse...

Caralho... vou ali beijar e abraçar minha mãe AGORA!

Xau