domingo, 23 de dezembro de 2007

Esqueceram de mim (na biblioteca)

Costumo cair no esquecimento nas situações mais bizarras possíveis. Já esqueci de tirar o condicionador do cabelo ou onde coloquei minhas chaves – fatos já narrados neste humilde, porém nobre espaço sob o título Amnésia. Mas nenhuma vez esqueci uma garota presa na biblioteca de casa. Parece piada, mas aconteceu. O fato foi protagonizado por um grande amigo, o Cabeleira. Sujeito tranqüilo, trabalhador, voz mansa, mas que apronta umas estripulias quando bêbado.


Pois bem. Cabeleira, um cara que gosta de receber os amigos em sua mansão, organizou uma festinha. Gente bacana, outras nem tanto, música chapante. Todos com aquela cara de "tá devagar aqui, né?". Mas o cabeleira, já com muitas doses de vodka no juízo era o único empolgado. Não cansava de repetir: "Eu gosto é de festa animada. Ihiiiiii". E tome mais vodka pra dentro da cachola. Numa dessas, ele percebe a presença de Julieta*, uma gatinha que ele já pegara em outra situação. Logo pensou: "Vigi. Hoje tem!". Partiu pra cima dela e começou a despejar seus galanteios. E tome mais vodka, vodka e mais vodka. Julieta também entrou na rodada do destilado.


Dado momento da noite, Cabeleira, animado, percebe que daquele mato sairia cachorro - sem trocadilhos, claro. Abandonou a festa e tentou levar Julieta para o seu quarto. Mas o pouco de juízo que ainda lhe restava o fez lembrar que seus pais, católicos praticantes, não gostavam desse tipo de comportamento - que os filhos levassem mulheres para dentro de seus lares. Logo, teve a brilhante idéia de dar uns amassos na biblioteca, longe dos olhares e ouvidos dos curiosos, principalmente de Cabeleira-pai e Cabeleira-mãe. Amasso vai, amasso vem. A coisa esquenta. Cabeleira já ofegante, coloca a mão no bolso à procura de uma Jontex e só acha umas moedas velhas. "Puta que pariu!!! Segura as pontas aí Julieta. Vou sair para conseguir uma 'proteção'". Julieta, paciente, não se opôs a sugestão do espertalhão.


Daí pra frente a noite do camarada desmoronou. Ele sai da biblioteca. Temendo um possível despertar do Cabeleira-pai e uma súbita vontade do velho em ler algum romance, ele tranca a porta por fora e leva a chave, deixando Julieta sozinha e encarcerada no cômodo. Volta para os amigos na esperança de que algum deles pudesse lhe fazer essa caridade. Mas no meio do caminho ele encontra algumas pessoas que ainda não estavam no evento quando ele resolveu entrar em casa com Julieta. Cumprimenta um aqui, outro ali. Encontra uma figurinha repetida. Azara. Leva fora. Parte pra outra. Anota um telefone. Bebe mais vodka. Conversa mais. Flerta com outras, azara todo mundo... e a noite vai se passando. O cara simplesmente esquece que há mais de uma hora havia deixado Julieta na biblioteca para voltar com uma Jontex. E ela lá. Já devia ter lido todos os livros.


De repente, num súbito de sobriedade, ele se lembra que a Julieta estava esperando por ele na biblioteca. Larga todo mundo na festa, entra no possante importado da Cabeleira-mãe e sai arrancando de ré da garagem da sua casa para comprar uma Jontex na farmácia mais próxima - já que nenhum amigo lhe fez essa caridade. O problema é que tinha um muro logo atrás. O rabo do possante "beijou" o chapisco da parede. Ele sai do carro, vê o estrago, fica puto e volta pra festa para tomar mais uma vodka e esquecer o prejuízo. Mas aí veio outra vodka. E outra. E outra. E outra.


Eis que ele lembra DE NOVO que tem uma mulher trancada na biblioteca esperando por ele. Entra correndo na casa e não aparece nunca mais. Mas paralelamente a isso, Julieta se emputeceu com a demora excessiva e resolveu ir embora. Mas a porta estava trancada (!!!). E agora? "Fo-deu", pensou Julieta, extremamente indignada. Ela tenta a janela. Percebe que é baixa e não tem tranca. Não hesita. Pula a janela e está de volta à festa. Com sangue no olhar e o bico do tamanho de um tronco vai à procura do cachorro que a largou lá. Mas ninguém tinha notícias do paradeiro do Cabeleira.


Horas depois. Fim de festa. Som desligado. Cansados de tanto esperar o surgimento do Cabeleira para pelo menos abrir o portão para eles, os convidados decidem ir embora assim mesmo. Eis que um outro amigo, o Morceguinho*, se aproxima da entrada da garagem e percebe um vulto no chão. Ele chega mais perto e não acredita no que vê. "É o Cabeleira!!!", gritou chamando todos. O cidadão estava dormindo no chão da garagem, só de bermuda e chinelos. O capacho onde estava estampado "Bem-Vindos" era o seu travesseiro. O piso de pedra ardósia o seu colchão. O relento a sua coberta. A cabeça estava levemente inclinada para a direita. A boca entreaberta, por onde escorria uma gosma que pingava na poça de saliva ao lado do capacho. Morceguinho tenta acordar o Cabeleira. Levanta o sujeito e tenta conduzi-lo até o interior do recinto para ele poder dormir num lugar digno. No meio do caminho, Cabeleira vira para o Morceguinho e solta essa: "Péra, péra, péra!!!!", disse ainda num estado de quase-dormindo. Ele apóia as mãos no joelho, se curvando para a frente. Morceguinho logo pensou: "Puta merda, o moleque vai vomitar aqui na minha frente". Eis que o Cabeleira levanta o dedo indicador, olha meio de lado para o amigo da vez e manda: "Eu ainda não dei minha dançadinha". E o cara começa a rebolar...


Dizem que Julieta nunca mais olhou na cara do Cabeleira. Dizem também que o Cabeleira havia entrado na casa à procura da garota. Mas quando chegou na biblioteca viu que a janela estava aberta. Deduziu que ela pulou e foi embora. Ao se dirigir à porta de entrada da casa, não aguentou tanta vodka e desmoronou ali mesmo. Ao lado do carro batido de sua mãe. Sem a Jontex. Sem a Julieta. É por isso que eu só bebo cerveja ou uísque.


Sem mais para o momento...


* Os nomes dos personagens dessa história real foram alterados para preservar a imagem/identidade dos mesmos

8 comentários:

Anônimo disse...

PQP... Como o cara consegue fazer isso! Nem com muita bebida. Que BURRO!!!!

Anônimo disse...

Os bêbados são capazes de coisas inimagináveis!
Chora!

Anônimo disse...

HAhauHAUhauHAhuiahuIHAihauHUAHiua
hUAHUiahuHUAhuhauUHAihauHIAHiuhai
AHUhauHAHiuahiHAIHihaHAIhiuahui
hauHUAHihauIHUIHAhahuIHAUhahauI
HAUhiuahUHUAhuauhHUIHAUhuiahuHUAHIU

Desculpa, mas não consigo comentar nada. Estou morreeeeeeeendo de rir!!!

Loryne disse...

ahhahahahahahahahah.

ainda bem que tinha uma janelinha na biblioteca!
;D

Anônimo disse...

Só nos resta a pergunta: qual será a próxima peripécia do cabeleira?! O Rio de Janeiro vai ficar pequeno se o deixarem beber mais vÓdEgA (com voz de bÊBo)!!!

Anônimo disse...

Ilário! O que vemos é exatamente como o ser humano se comporta diante de tanto álcool no sangue. É claro que alguns se comportam de maneira diferente. Mas esta em especial mostra que mesmo sobre toda as dificuldades, a melhor coisa é beber sempre um pouco a mais para esquecer os problemas que tanto nos atormentam. Parabéns ao autor.

Abraços!!!

DB disse...

uma mulher a mais ou menos, com certeza, nao vai fazer falta ao cabeleira. o cara é um dos maiores pegadores desse quadrilatero federativo...o que me admira é andar sem camisinha no bolso!
juvenil...

Ederson Marques disse...

mulher a mais ou mulher a menos... nada disso realmente importa meu caro daniel brito... po, mas deixar uma gata trancada e praticamente morrer por vodka é o fim da picada... a gata trancada, lembro, representa uma gata a menos na festa... uma oportunidade a menos de molhar o ganso... hahaha